Avenida. Rio Branco, 289 - Centro 56.800-000  -  Afogados da Ingazeira / PE

Fone: (87) 3838-1221 
Pároco: Pe. Gilvan Bezerra de Lima


 

Há cem anos, Pe. Carlos Cottart responsável pela construção da Catedral de Afogados escrevia sobre a região

INFORMAÇÕES HISTÓRICAS

 

No dia 23 de dezembro de 1925, faleceu o Pe. Carlos Cottart, que foi vigário de Afogados da Ingazeira e construiu a Matriz do Senhor Bom Jesus dos Remédios, atual Catedral Diocesana, onde foi sepultado.

Dele são as anotações seguintes que ele registrou, em 1914 (100 anos atrás !), no Livro de Tombo – I da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Remédios em Afogados da Ingazeira- PE.

 

INFORMAÇÕES HISTÓRICAS

 

1. Historia geral. Os autochtonos e os primeiros colonos ou missionários d’esta terra

1.1 Índios.

Índios Carirys. Os Índios que povoavam esta região tinham nome de Carirys. Fernão Cardim, Jesuíta, em seu “Tratado dos Índios do Brasil”, em 1584, falla d’elles com essa denominação. No século seguinte os hollandezes approximaram-se das regiões d’elles. Elias Herkman os representa como uma raça numerosa que habitava uma região elevada e fria. Assim designava o planalto da Borborema, cujas ramificações estendem-se até Campina Grande da Parahyba. Os Carirys verão de outra raça que os Tupys do litoral; Tanto a língua como os usos erão diferentes. Os seus conhecimentos eram mais desenvolvidos do que dos Índios do litoral; e mais valorosos souberam reprimir a invasão d’estes vindos do Sul. Também custaram mais a sujeitar-se à dominação dos brancos, e bem poucos escaparam ao escarnificio que se fez d’eles entre 1695 e 1710 no Levante dos Tapuyas. Tapuya era o nome com que Tupis e brancos designavam os Carirys, testemunhando assim do assombro em que os mettia a coragem e altos feitos d’esses guerreiros patriotas.

Origem amazônica e phenicia. As tradições dos Carirys lhes atribuem origem amazônica. O catecismo de frei Bernardo de Nantes, escripto na língua d’elles alude a essa tradição quando explica aos índios “não acrediteis que sahistes do grande lago Norte.” Essa tradição septentrional lhes é comum com os Parecis do Mato Grosso. As tradições índias do sul fazem chegar os primeiros homens pelo Oceano. Teriam apontado entre Santos e Rio de Janeiro (Vide Pe. Galanti, História do Brasil). Tratar se hia n’esse caso da expedição phenicia que o Rei Salomão mandou do Mar Vermelho. Herodoto (800 anos ante Christus) narra como os Phenícios contavam como faziam trezentos anos, uma frota desceu para as regiões do fogo, beirando terras a sua direita, e como a partir de certo tempo tiveram o sol a sua direita embora se dirigisse para o poente, causa que elle declara impossível, devido a noção incompleta que a antiguidade tinha da forma da terra e do movimento solar. Esses Phenícios chegaram a uma terra de Ophir, voltando depois de uma viagem de dois anos, trazendo ouro e madeiras preciosas, entre as quais o pao cor de fogo de que falla Flavius Josefo, no meio das ruínas do templo de Jerusalem, sob Tito. Por outra parte a raça phenícia, descendente de Canaan, que se espalhou pelo norte da África, e teve com suas doze capitaes, entre as quais Carthago, foi bastante poderosa para disputar a Roma o domínio do mar mediterrâneo, com seus chefes Asdrubal e Annibal, Strabão, Diodoro da Sicília descreveram essas guerras Punicas, até que vencidos em seus próprio território, e destruída a cidade de Carthago, os Romanos não lhes fizeram graça e obrigaram-nos a deixar suas terras, atirando-os ao Oceano. Guiados por Hannon, transpuzeram as colunnas  de Hercules e foram ter com ilhas fertilíssimas, onde havia árvores grandes e rios immensos; as Antilhas, América central e bacia do Amazonas. Hannon fez assim duas excurções. Platão, V século antes de Christo, fallava d’essa grande ilha da Atlantida, a qual não lhe parecendo à vista quando na coluna de Hercules, declarava ter sido arrebatada por cataclismo marítimo. Tudo leva a crer que os antigos Mexicanos com seu culto do sol, seus mysterios hediondos, seus sacrifícios humanos, sua escripta, sua architectura, a cor, a physionomia não eram outras sinão os Phenícios expulsos do velho mundo pelos Romanos. Com os séculos espalharam-se de preferência pelo litoral do Pacífico e estabeleceram reinos florescentes como o dos Incas no Perú. Outros levados pelos ventos norte que sopram durante seis meses do anno forão arrastados pelas correntes pelas regiões amazônicas, e ao grande rio chamaram de lago. Atrevidos navegantes os Phenícios descobrindo a foz do Amazonas foram rio acima e acabaram por povoar suas margens e alastrar-se pelo curso dos seus afluentes do sul. E’um facto que os Índios Carirys usavam os processos cerâmicos que tinham guardado dos seus avós amazônicos. Ate a forma geral da escripta tal qual se encontra frequentemente ou privada ou esculpida em nossas regiões, como se vê na pedra escripta do Espírito Santo d’esta freguezia, analoga a escripta phenícia é outra luz sobre a origem dos nossos indios (É absurdo fazer descer dos Chinezes pelo Estreito de Behring os autochtonos desta terra. Ainda mais absurdo e maçônico fazel-os nascer dos macacos successivamente transformados). 

Época das Invasões. Todavia a história dos Carirys só pode ser conhecida positivamente a partir do século XVII que d’antes nenhum documento existe sinão conjecturas. Quando tiverem decifrado as escriptas lapidarias, talvez se faça alguma revelação positiva. Um movimento de invasões tinha se desenhado entre os Indios do Sul, no princípio do século. Os Tupiniquins invadiram as regiões da Pindorama. Ahi bateram de encontro aos Carirys (taciturnos) de que ignoravam a língua. Estes cortaram-lhes o elo, e mal puderam os Tupiniquins estirar-se em zonas estreitas, pelo litoral de Pernambuco. Aos Tupiniquins sucederam os Tupinambas, estes apertando os Tupiniquins contra o mar e elles mesmos repellidos pelos Carirys do Rio São Francisco. As beiras do São Francisco foram Theatro de lutas renhidas e sem tregua entre duas raças rivais. Os Carirys mereceram o nome Tupi de Tapuyas, inimigo invensivel, objeto dos odios do invasor. Os restos dos Tupinambas acabaram por fixar-se com o nome de Amoipiras, entre os Carirys e os Tupis do litoral, estado das Alagoas de hoje, ate Pesqueira. Os Carirys ficaram ocupando o curso mais septentrional do São Francisco ate a Serra de Orubáa e o Cariry Velho a l’este, o Piauhi ao poente, ate Acaru do Ceará.

Usos e costumes. Nota: São anotações tiradas o livro do Sr. Joffily, de escriptos de missionários e dizeres de fazendeiros que empregaram Carirys amansados. O Cariry era de tamanho médio, robusto, Côr bronzeada, nariz grosso, cabeça larga, rosto redondo, os cabelos pretos pendentes sobre o pescoço; não os deixavam crescer cobrindo as orelhas. Iam nus; os homens usando o “atilho”, e as mulheres tecendo cintas de fio de folhas (caruá). As mulheres erão altas, fortes e bellas. Quando davam a luz sujeitavam-se a um jejum rigososo. Os recém nascidos com nove a dez semanas erão mergulhados em agua. Estes acostumavam-se cedo a andar e a nadar. Em geral pintavam-se de genipapo ou uruçu, ou pajehú. Rapidos à carreira, alcançavam os cavallos.

Religião. Obedeciam a chefes religiosos a quem veneravam. Estes chamavam-se Pajés. Distinguiam-se dos outros pelos cabellos cortados em coroa e pela unha do dedo pollegar que conservavam cumprida.

Modo de viver. Os homens tinham por principal ocupação a caça onde faziam prodígios de valor principalmente contra as feras, os tigres da fauna, em que mereceram fama insuspeita; os veados, e os bois bravos que erravam por suas regiões, no principio da colonização.

Armas. Suas armas eram o machado de pedra com cabo cumprido, o arco, e azagaias ou armas de arremesso (javelot). Não tinham instrumentos de ferro. Os arcos eram grandes e de madeira rígida; tendiam-os com nervos de tamanduá. Calçavam a madeira do arco com os pés, estando elles deitados no chão e com as duas mãos esticavam a corda, fazendo mira com um acerto de admirar. Tambem atiravam de pé. Quando iam para a guerra adornavam-se com pennas de aves, papagaios, araras, maracanans, em volta dos rins, e sobre a cabeça fiavam em pé outras pennas, em forma de coroa.

Instrumentos. Usavam outra arma que também servia para a plantação, feita de madeira dura; era achatado, largo, acabando em ponta pelas extremidades e o centro arredondado, inchado no meio. Erão terríveis na guerra em que a táctica era a de correrias rápidas (voltiges). Valorosos até a afoiteza erão temidos pelos Tupis do litoral; estes, com um assombro instinctivo os chamavam de Tapuyas. Tinham uma religião em que o fumo entrava como factor nas cerimônias. Os pajés viviam ocupados em proteger os compatriotas contra o espírito do mal. Immolavam a seus deuses os prisioneiros de guerra; até as mulheres bebiam misturado com água sangue das vitimas humanas. Resto de tradições cruéis dos antigos Phenícios. O Deus do fumo chamava-se Badzé.       

Agricultura.  Plantavam fumo. Conheciam o algodão que teciam suas redes; souberam fiar o caruá. Plantavam milho e sabiam preparar a farinha do chique chique; ignoravam a mandioca. Alimentavam-se em suas correrias com o fruto de suas caças e da pesca e com fructas sylvestres. A mulher é que tratava do roçado, se assim se pode chamar as plantações que faziam nos lugares por elles escolhidos. Não tendo instrumentos de ferro para preparar o terreno, punham fogo no pé das arvores ate derrubar, queimavam as hervas  e ali com o instrumento que fallei acima cavavam a terra para depositar a semente. Porem nada recolhiam para conservar. Mudavam de lugar quando viam escassear a caça no raio de até tres leguas das suas casas. Poucos moveis de casa usavam; potes e vasos de barro por elles mesmos fabricados e a rede, era em que consistiam os utensílios da casa. Esses vasos de barro eram grossos. Encontrei numerosos fragmentos na Serra de Sta. Isabel (Riacho Conceição) no lugar perigoso a quem os moradores dão nome de Canella da Ema. N’esse mesmo lugar morou até a morte o indio Caboclo bravo, cujo túmulo ainda subsiste no mesmo alto, de que os velhos ainda tem lembrança. Viviam muitos anos. Não era muito raro attingirem cento e cincoenta annos, às vezes duzentos, Porem é difícil dar por certo a idade que alguns se attribuíam. Os velhos eras venerados e era costume quando morriam deposital-os dobrados em urnas, forma de jarras, de terra cotta, e enterral-os nas alturas as vezes de accesso difficillimo. Disso temos por exemplo a Serra de Sta. Isabel, bem como a Serra da Canastra onde existe um ossuario notavel.

Língua. A língua d’esses Indios não era a mesma dos Tupis. O nome dos rios, lagoas, dos pássaros, das arvores o demonstram sufficientemente. Foram escritas grammaticas da língua Kiriri; o frei Bernardo de Nantes escreveu um catecismo na língua d’elles.

Escriptura. Tinham uma escripta de que ficam exemplos em diversos lugares, na pedra pintada da Serra da Borborema, e aqui perto da povoação Espírito Santo, numa pedra furada a qual se chega pelo leito do rio Pajehu. Essas escriptações lapidares assemelham-se à escrita phenícia, da segunda forma; é análoga à letra chaldaica; tem a direcção semítica, da direita para esquerda. Porem ainda não foi possível decifrar essa escripturação. Embora a língua seja differente da dos Tupis vindo do Sul, existem no entanto caracteres geraes, que accusam uma origem commum e derão occasião a que se falasse n’uma língua geral dos Indios de toda a América do Sul. O Cariry era em geral fiel e intelligente. No serviço dos brancos (cumpre dizer que poucos se sujeitaram à colonização branca) gostavam de fazer mostra de agilidade, e foi elle que estabeleceu a fama os vaqueiros. No entanto sempre foi rebelde a toda disciplina um tanto exigente, e sempre sobranceiro, vivia sempre desconfiado.

1.2  Evangelização e Colonização

Penetração. A penetração do Sertão fez-se por dois caminhos. Desde antes de 1650, gente da Bahia de São Salvador, remontando o São Francisco chegaram às margens do Rio Moxotó e do Pajehú. Outros, chamados Paulistas, como eram Domingos Affonso Mafrense e Domingos Jorge descendo o curso do São Francisco, a partir de suas nascentes ate o lugar onde se incurva pra descer para o suestes, transpuzeram, rumo norte, a serra dos Irmãos e ahi se estabeleceram no Piauhi. Cedo foi conhecida a passagem da Bahia para São Luiz do Maranhão, pelo Moxotó ate ganhar as águas do Rio Jaguaribe, cortando depois o Parnahyba. A estrada de comercio quando a navegação veleira era impossibilitada pela direção dos ventos norte no Atlantico, durante seis mezes do ano. Enquanto os Jesuítas evangelizavam os Indios mais proximos do litoral, Carmelitas franceses foram os missionários dos Carirys  do Rio São Francisco. Colonizadores Bahianos forão quem primeiros se estabeleceram pelas margens do Pajehú. Temos ainda hoje que as datas de Sesmarias remontando a família da Torre da Bahia mandava seus gados pastorear pela bacia toda do Pajehú. Outra família, a de Christovão da Rocha Pitta, a mesma do historiador, estava estabelecida n’essa região do São Francisco, provavelmente pelo Moxotó. Uma carta do Governador de Pernambuco ao rei de Portugal em 1700, diz: a casa da Torre, os herdeiros de Antonio Guedes de Brito e Domingos Alfonso Sertão, moradores na jurisdicção da Bahia erão senhores de quase todo sertão de Pernambuco. Um escripto de Frei Martin de Nantes, missionario capuchinho da casa do Recife menciona a existência de um Antonio de Oliveira estabelecido já em 1670, nas nascentes do Parahyba (hoje comarca do Monteiro, Cariri Velho). Este tinha alcançado dos Indios Carirys (Sucurus) ahi aldeados, a autorização de estabelecer-s e pastorear. O capitão Paschoal de Oliveira Ledo que ainda morava na Bahia, tendo ai realisado o rapto de uma jovem de família importante e perseguido sem tregoa, até o Rio São Francisco, não duvidou de passar o rio a nado, a cavalo, em companhia da mulher amada. Foi rio Moxotó acima e proseguiú ate a casa do parente estabelecido nas proximidades da Alagoa do Monteiro actual; buscando ahi refugio e protecção. È que a estrada já era conhecida. Admirar-se há alguém não terem vindo do Recife ou da Parahyba os colonos d’esta terra dos Carirys. Porem observando como n’aquella data estava Recife em poder dos Hollandezes, e Parahyba em luta contra Francezes e Hollandezes, não era fácil o desenvolvimento pelo interior. Os Hollandezes chegaram ate as primeiras abas do Planalto da Borborema e não ousaram penetrar adiante. Por outro motivo não se aventurarem devido ao regime das águas, parando os aventureiros pelas nascentes do Capibaribe do Ipojuca. Deve notar-se que o Planalto da Borborema e seus prolongamentos, até orubáa de Pesqueira serve de linha divisória, mandando as águas a leste e ao norte para o Atlantico, enquanto que ao poente e ao sul as manda para o rio São Francisco. Constituia uma barreira natural que as guerras no litoral tornaram por muito tempo infrangível. Foi da fazenda de Antonio Oliveira que partiu em bandeirante o capitão-mor Theodosio de Oliveira Ledo para reprimir os Indios Sucurús (Xicurús) estabelecidos na margem esquerda do Parahyba. Transpondo este planalto da Borborema vêm encontrar estabelecido nas águas do Piancó o paulista Domingos Jorge que do Piauhy tinha proseguido ate estas novas regiões onde se fixou com seus gados e enriqueceu, bastante poderoso para, conforme testemunha Vernhagem, poder mandar um contingente de mil homens para a guerra dos Palmares, em 1695, sendo elle mestre de campo. Oliveira Ledo retirou-se um pouco mais ao norte e chegou em 1 de dezembro de 1697 às águas do Piranhas. A data dos Oliveira é para os sertanejos Parahybanos o que a data da Torre é para o Pajehú. Capuchinhos da Provincia franceza  de Tolosa, com casa no Recife, o convento da Penha, tinham estabelecido suas missões desde o princípio do seculo nos arredores do Recife, ate Parahyba. Aldearam os índios Bultrins, onde esta hoje Pilar (Parahyba) e subiram ate Campina Grande onde estão em missão florescente em 1670. Frei Martin de Nantes, percorreu toda a zona da Borborema ate a fazenda de Antonio de Oliveira. Descreve com espanto a natureza desolada e morta dos lugares atravessados em tempo de secca, tal qual o inverno europeu. Já d’antes Antonio de Oliveira tinha ido ao Recife buscar um missionario para evangelisar os povos que os cercavam. Frei Theodosio de Lucé foi designado para essa missão. É provável que este foi o primeiro missionário das Cabeceiras do Pajehú. Ainda se vê na povoação de Ingazeira os restos da barauna secular debaixo da qual se disse a primeira missa n’essas regiões. Roida ao pé, desabou  por um d’esses redemoinhos de vento em janeiro de 1911. Está Ella deitada no chão. Os missionários titulados d’esta terra foram sempre os Capuchinhos do Recife.  

Levante dos Tapuyas.  A proporção que a penetração branca rechassava os Indios para as alturas, estes privados de correr o campo para a caça, organizaram uma Confederação Geral para repellir os brancos. Foi o levante geral dos Tapuyas, das actas officiaes. Foi tão bem dirigido, e os brancos tão pouco prevenidos que quase tinha o resultado almejado, e só não venceram os Indios por culpa do Sucurus da Parahyba, porque, ou não entraram na Confederação, ou trahirão os compatriotas. Forão elles a causa de muitos Carirys serem prisioneiros. A revolta falhou, no entanto as represálias duraram ate o anno de 1710. Deixou vestígios sangrentos pelo sertão todo. Alguns índios (40 no Piancó) nas diversas partes sujeitaram-se e auxiliaram os fazendeiros como vaqueiros; porem os Karirys ou combateram até a morte ou retiram-se por outras terras. D’ahi em diante, com o auxilio dos presos que os governos provinciaes mandaram ficar à guarda dos fazendeiros, estabeleceram-se aldeas e povoações. Do lado dos brancos o herói d’esta guerra foi sem contestação Pascoal de Oliveira Ledo. De que acima fallamos. Pelo lado dos Indios, nenhuma chronica menciona seus combates, nem sequer o nome de seus chefes, na frente do movimento. De modo geral os requerimentos dirigidos aos governadores pelos bandeirantes, pedindo recompensas e favores, alludem à bravura, a tenacidade, à habilidade, ao escarnecimento da morte da parte dos Tapuyas. Menos felizes do que os Tamoyos do Sul cujos altos factos foram memorados pela Musa Magalhães, os Carirys não tiveram um poeta que lês cinja a fronte, na hora de desapparecer como nação, da coroa da immortalidade na lembrança dos posteros.

 

2. História particular

2.1 Movimento religioso.

2.1.1. São José da Ingazeira

Creação da freguezia de São José da Ingazeira. O alto Sertão esteve sempre administrado religiosamente pelos Bispos de Olinda. A primeira sede da freguesia, nos primórdios do século XVIII foi Garanhuns. Brevemente vemos um vigário estabelecido em Cabrobó, no São Francisco. Este não se dando bem de saúde, veiu fixar sua residência em Pajehú de Flores perto da fazenda prospera de N. Formaram-se diversas freguezias desmembradas quer de Garanhuns, quer de Cabrobó, quer de Flores. Somente em 1836 foi que se formou a freguesia de São José da Ingazeira, desmembrada de Flores, por decreto da Assembleia legislativa Provincial de Pernambuco, datado de 29 de abril de 1836, da forma que se pode ler as fl. 2v, 3 e 3. d’este livro. Do relatório apresentado pelos Juizes de Paz da Comarca constava que a Freguezia da Villa de Flores (Pajehú) tinha de extensão, do nascente ao poente 50 leguas e de norte a sul, 10, 12 16 leguas. Contava 3.921 fogos, os quaes com a media de 6 almas por fogo, davam uma população mínima de 23.526 almas; o que rendia em moeda d’aquella data 3:110$000. Foi achado justo que se divida a freguezia desmembrando duas, a das Cabeceiras ao Noroeste com 1.081 fogos e 6.486 almas, e a poente com 890 fogos e 5.520 almas de modo que ficasse para o Vigario de Flores um rendimento de 1:430$000; para o das Cabeceira, 900$000; para o do Poente 700$000. N’essa data comprehendia a freguezia das Cabeceiras ao só o território actual de Afogados d’ Ingazeira mas tambem São José do Egypto; tinha por limites ao norte e ao nascente, o estado da Parahyba; ao sul, as vertentes divisórias do Pajehú e Moxotó, ao poente a linha divisória das águas do Dous Riachos com as Caiçara e d’ahi para o sul pela Serra da Carapuça que ainda hoje serve de limite com a freguezia de Flores. Existia então na Ingazeira uma capella dedicada a São José. Foi elevada a cathegoria de Matriz e o Rvdo. Capellão Padre Jose Antonio Alves de Brito foi creado vigario a titulo encommendado por espaço de um anno, por provisão datada do Palacio da Soledade a 4 de Agosto de 1836 e assignada pelo então Bispo diocesano Dom João da Purificação Marquez Perdigão, sendo Imperador Dom Pedro. Foi o padre Jose Antonio Alves de Brito o primeiro vigario d’esta freguesia. Tomou posse a 28 de agosto de 1836. Residia na Ingazeira. A elle succedeu a titulo collado o Pe. Placido Antonio da Silva Santos, a 4 de maio de 1838. O Status animarum datado de 21 de novembro do mesmo anno 1838 dá, em seu mappa demonstrativo da freguezia 1.033 casas, 1.078 fogos, fazendo 6.854 almas, das quaes 4926 de confissão, havendo confessado 1881. Existiam 1.078 escravos, sendo 854 de confissão, tendo se confessado 334. No anno de 1839 a 30 de outubro a população chegava a 7.451 almas, repartidas em 1.775 casas e 1.328 fogos. A população total n’aquella data era pois de 7.451 almas, pelas duas freguezias actuaes de Afogados e de São José do Egypto.

Successão dos vigários até 1879.  Pelo anno de 1830 já existia a capella de Santo Antonio da Colonha. O capellão, Frei Antonio Jose exercia o ministério em toda essa ribeiro. N’aquella data construi-se uma capella a São José, na fazenda, alias rica da Ingazeira. Foi capellão o padre Motta (Pe. José Antonio Malheim Motta. Este já existia na Ingazeira em 1832. Era natural de Muribeca), o qual depois retirou-se para a Colonha. Morreu pelo ano de 1850. N’esse tempo também  foi criada a freguezia da Ingazeira e nomeado vigário, por provisão episcopal, o Pe José Antônio Alves de Brito, que tomou posse no dia 28 de Agosto 1836. N’esse anno uma circular episcopal mandava que os Parochos remettessem mensalmente ao promotor público uma relação circunstanciada das pessoas que fallecessem deixando filhos menores. Foi vigário por espaço de um anno e depois substituído, encontrando-se a título de coadjuntor pro parocho a 16 de abril 1863 e capellão de Varas ate 1874. A elle pela Ingazeira e Varas chamavam de Padre Velho. Tinha uma fazenda no Poço Fundo, perto da Ingazeira (Malhada do Boi). Era um padre extremamente manso e pacifico, porem ainda vivem alguns netos d’ele. A 3 de maio de 1838 tomou posse na fraguezia o Pe. Placido Antonio da Silva, como vigario collado e da Vara. A escripturação d’elle é perfeita. Assumiu o trabalho ingrato de um recenseamento da freguezia no livro Estado das Almas. Lembram-se d’elle como Padre zeloso que explicava as orações. Durante seu ministério teve uma visita pastoral feita pelo Pe. Francisco Antonio da Cunha Pereira, parocho coadjuntor da freguezia do Exú e visitador das comarcas da Boa-Vista e de Pajehú de Flores, em 1842. Consta, da data d’essa visita, (fls. 4v.) que a Egreja Matriz de Ingazeira era muito pobre, carecendo de paramentos necessários, que a população era muito apathica e ignorante. O Vigario Placido teve algum tempo por coadjuntor o Pe Joaquim Manoel Correa e Silva (padre Quinqua) capellão de São José do Egypto. A 5 de outubro de 1849, tomou posse da freguezia da Ingazeira o Padre Felippe Benicio Moura. Era capellão de Varas. Demorou até 1862, quando sahiu para a freguezia de  Floresta. Achava pequena a freguesia da Ingazeira. Era padre moreno, gordo. Durante seu ministério houve uma visita pastoral realisada em 1857 pelo padre Modesto (José Modesto Pereira de Britto) Vig. Collado do Exú, cujas actas forão redigidas em termos gerães. Accompanhavam-no os capellães da Colonha, da Barra, de São José e de Varas. Foi substituído na freguezia pelo padre José Antonio a 16 de abril de 1863, a título de coadjuntor pro parocho, sendo vigario o Pe. Damaso d’Assumpção Pires que residia no Recife, ate que tomou de novo posse a título encomendado a 29 de junho de 1864. A elle succedeu a 14 de janeiro de 1871 o Padre Amancio Leite da Silva; durante a regência de quem foi publicada a circular episcopal prohibindo os presépios com meninos e as procissões com bandeiras (15 de Nov. de 1871). O padre Amancio era do Piancó. Retirou-se logo porque tinha sido offendido em palavras pela família que dominava na Ingazeira. A elle succedeu a 14 de julho de 1872 o Padre João Vasco Cabral d’Algornez. Uma portaria foi mandada aos vigários exigindo as denominações com o nome de ambos contrahentes. Era Bispo Frei Vital. 29 de junho 1872. Tambem uma circular regulou as petições de dispensas matrimoniaes (3 de maio de 1874). Do fundo do cárcere (fortaleza de São João) D Vital expediu a seu clero a sua famosa Pastoral. O Padre Vasco foi com licença para o Recife entregando a freguesia ao Capellão de Afogados, Pe Pedro de Souza Pereira, a 23 de outubro de 1877. Este lhe succedeu a 21 de outubro de 1878. O padre Pedro de Souza Pereira recusou-se a ir residir na Ingazeira e teve licença do Bispo para ir celebrar na Matriz somente de quinze em quinze dias. Os vigários não gostavam da Ingazeira por causa da soberba da família ahi reinante. Francisco Miguel, coronel e chefe político, ostentava muita grandeza, e diversos factos demonstram que tinha seu capricho por lei. Ainda hoje só se falla d’ell como homem injusto e soberbo. Oppoz-se sempre a que se construam casas na Ingazeira. Desapossou as vezes com barbaria os pobres moradores. Por esse modo afastou o povo da Ingazeira. Fez-se feira no Afogados; ahi residia um capellão; Afogados foi elevada a villa e o vigario viu transferir a sede da freguezia para a nova Villa a 21 de novembro de 1879, e tudo isso apezar dos esforços do Coronel Francisco Miguel que tentou assaltar a nova Villa com o auxilio de cangaceiros do Adolfo (Adolfo conhecido por Adolfo Meia Noite) cujo couto era a mesma Ingazeira. É preciso accrescentar que esses annos 1877, 1878,1879, forão marcados por uma grande secca que explicava em parte as depredações dos cangaceiros. No entanto é de lastimar a ma orientação que o Padre de Souza Pereira deu à sua administração parochial, mudando a sede da freguezia por motivos passageiros.

Principais famílias. Vimos anteriormente que somente depois de 1710 é que forão pacificados ou antes destroidos os Indios autochtononos. N’essa época a Ribeira do Pajehú era propriedade da Torre, opulenta família bahiana. Na Alagoa de Baixo existem papeis assignados pelo procurador da casa da Torre. Este chamava-se Antonio Barbosa; morava em Santo Antonio (beira do Pajehú uma légua d’aqui). Andava elle com os livros do Tombo e dos Aforamentos dependurados em costas de Cavallo, cobrando os dízimos, ou os arrendamentos foreiros, ou vendendo em sesmarias. As sesmarias de tres leguas eram a começar de flores. Almas, Carnahyba, Barra dos Dous Riachos, São Thiago, Sant’Anna, São Pedro. (São Thiago). A primeira sesmaria vendida aqui, primeira em data, e extensissima (as 3 leguas erão sempre a vista) foi a de São Thiago. Foi adquirida por Eusebio da Gama, conhecido pelos antigos pelo nome de “Marinheiro”. Tinha vindo de Goyana, (guerra dos mascates). Casou com uma filha da família do visconde de Saboeiro, estabelecido no Carcará (Ceará). Teve perto de si um parente, Portuguez também, com o nome de Francisco de Paiva. Eram proprietários de toda esta zona das Cabeceiras do Pajehú, ate as terras da sesmaria de Santa Anna. (Barra dos dous riachos Afogados). Uma filha de Eusebio, com Anna, casou com Caetano Ferreira, creador, vindo de São Domingos (de Villabella), e fixou-se na Barra dous Riachos. É a origem da família dous Dous Riachos que hoje conta perto de dous mil membros, no ver d’elles.  O velho Eusebio morreu cego. Era homem, mas trabalhador.  Diversas Caiçaras, bem como as Gangorras lhe devem os nomes. Teve família numerosa. Caetano Ferreira teve a casa d’elle onde está hoje a morada do Coronel Luiz Chaves. Um irmão de Caetano, com nome Nicacio Ferreira casou com uma filha de Antonio Lopes (Falcão. Esse Antonio Lopes, creador, é o ramo d’onde sahiu Manoel Lopes do Riacho do Mel, sendo este neto de primeiro, primo de Maria Ricardo Rabello, da Alagoa Velha), oriundo de Cimbres, e foi crear fazenda no lugar do Falcão. Esse nome era proveniente do nome do vaqueiro foreiro, bahiano. A mulher de Nicacio, filha de Antonio Lopes chamava se Anna. (Duas Barras Lagoa do Serrote). Uma filha d’estes, também chamada Anna foi quem casou com Manoel José, filho de José Ferreira, e neto de Caetano Ferreira. Forao morar nas Duas Barras (Distrito de Varas) Os filhos de Caetano Ferreira apresentava-se na ordem seguinte: 1. Manoel Ferreira. Era quem morava detraz da Matriz actual. Ainda hoje notam-se os alicerces, e a raiz calcinada da baraúna. 2. José Ferreira. Morava na Barra, d’outro lado do Rio, onde hoje tem uma cruz, estrada do Espírito Santo. Os filhos d’elle forão Manoel José das Duas Barras depois de casado com Anna filha de Nicacio do Falcão. E Bellarmino, ainda vivo, na Lagoa do Serrote. 3. Elesbão que ficou no Alto (Serra Vermelha). Filho deste era Joaquim Feliz do Alto. 4. Josefa casou com João da Silva oriundo do Piancó e foi morar na Colonha. Donna Rosa do Jatobá, mãe de Manoel da Goiabeira, é neta d’elles. Dona Rosa nasceu em 1829. 5. Felix Ferreira que se casou com Gertrudes. (Goiabeira) Anna, era filha de Antonio Damião, da família Nunes Magalhães da Villabella. Esse Antonio Damião guardava o gado do Pe. Francisco, capellão de Villabella. No lugar Cipó, abaixo de São Domingos (o Pe. Francisco deixou a fama de padre estrompa). (Pereiros). Os filhos desse consorcio forão Manoel Jose de Magalhães Nunes e d’este Joaquina finada em 1911; mulher de Bellarmino, Laurinda ainda viva mulher de Fortunato; e Antão Nunes dos Pereiros. (Alagoa Velha). Um criador, João Antunes Pereira, na Alagoa Velha (alto que separa Alagoa Velha do Bom Nome) casou na mesma família e teve José Leandro Pereira que é o pai de Innocencio Pereira da Silva ainda vivo. (Macambira). João Antunes Pereira morto, a viuva casou com Dyonisio Rabello, outro creador vindo da Bahia, e foi o pae do finado Major Ricardo da Silva Rabello, apparentado alias com Manoel Lopes da Macambira e Bredo (vide Falcão). (Ingazeira). O fundador da Fazenda da Ingazeira, chamava-se Agostinho Nogueira de Carvalho. Era irmão de José Nicolau, estabelecido na Cachoeira (Espírito Santo), da familia Cearense do Carcará. Os filhos de Agostinho forão: Agostinho e Da. Isia que se casou com o coronel Francisco Miguel de Siqueira (era do Cariry Velho, descendente de duas moças, únicas que escaparam ao carnificio de uma fazenda pelos Indios, no tempo do levante dos Tapuyas – Vierão fugidas para o lugar São Pedro. São ellas a origem da população das queimadas, São José e Ingazeira), vindo de baixo, chefe político e alta personagem, porem malefica por cobiça e orgulho.  Morreu Francisco Miguel a 1878, entrando na rua de Ingazeira, derrubado pelo animal, quebrando o hombro, quando vinha de Afogados a que tinha promettido exterminar. Foi de que morreu. (Riachão) Uma filha d’elle Leopoldina de Almeida Pedrosa é a mulher do Sr. Antonio Italiano, estabelecido no Riachão, na terra que era do tenente Pedrosa genro e sobrinho do Coronel Francisco Miguel. (Volta) Joaquim Amorim creou a fazendo do Curral Velho hoje Volta. Morava no lugar onde está hoje Manoel Vidal. Uma filha d’elle Teresa casou com um Inglez, dizem de nome approximativo Wright Janon, que tomou o nome de Francisco Ricardo Nobre Cavalcante. D’esse casamento é que procedem: 1. Henriqueta, que se casou com Leandro Leutarino de Freitas, oriundo do inhamum (Ceará) da família Feitosa, e teve filha Sophia, que casou com Vidal de Siqueira Carvalho, de quem procedem: José Vidal, Jovino Vidal e Manoel Vidal (Espírito Santo, Vidal de Siqueira Carvalho era filho de Isidoro de Siqueira Carvalho, estabelecido no Espírito Santo. Este aparentado, primo legítimo do Coronel Esperidião, da família Carcará, Visconde de Saboeiro, (Ceará)). 2. Carolina que se casou com Florêncio Leutarino de Freitas irmão de Leandro. São pais de diversos filhos, entre os quais, Joaquim (Quinqua Flor). (Varas). O primeiro fazendeiro do Riacho das Varas, tinha o nome de Francisco Barbosa de Sobral. Era creador, neto de Joaquim Amorim, bem como o irmão Antonio Amorim, pae de Timotheo Amorim. A fazenda de Francisco estava detraz da actual casa de José Vidal (Joaquim Amorim era portuguez, morava na Volta, então Curral Velho. Francisco Barboza zangou-se com os vizinhos do Riachão e retirou-se para o Riacho das Varas). Casou elle com Dona Leonor viúva. Vinda do Piauhy, rica com intenção de casar com o vaqueiro Agostinho, da casa de Francisco, que a tinha trazido. Porem Agostinho cedeu-a benevolamente a Francisco Barboza. Nada pude da descendência. Vidal era filho de Isidoro, que vivia no Espírito Santo. Annule (Duas filhas de Vital de Siqueira Carvalho casaram successivamente na Volta).  Vicente Estevão, oriundo d Monteiro, teve diversos filhos entre os quaes José Estevão que é casado com a cunhada (morta a primeira mulher) chamada Anna, ambas filhas de Vital de Siqueira. São estas as casas mais antigas d’esta freguesia. O desdobramento d’estas famílias é que vae repartindo entre os novos casaes as terras. Alem d’ellas tem vindo morar aqui, a diversos títulos, principalmente, a principio, a título de vaqueiro, uma gente vinda do sul, ate das Alagoas e hoje em dia formados com famílias, das  quaes deveremos fazer menção, n’um capítulo especial sobre a população actual.

Capellas existentes. Breve noticia. Já mencionamos a existência de algumas capellas, n’esses princípios da freguezia. Precisamos dar d’ellas uma breve noticia. Erão ellas cinco, contando a Matriz na Ingazeira. Porem duas, as de São José do Egypto, e de São Pedro da freguezia do Egypto nada diremos por ser agora outra freguezia, desmembrada de Afogados da Ingazeira. Dizemos primeiramente da capella de Varas, depois da Ingazeira, deixando para outro capítulo, a de Afogados, actual Matriz. (capella de Varas Riacho das). A mais antiga capella d’estas regiões foi sem contestação a de São Pedro. Data das origens da colonização e evangelização, anterior a 1710. Foi reedificada no principio do século passado. Era visitada pelos capuchinhos do Cariry Velho. Tiverão um convento num lugar chamado Boqueirão; ainda se viam as ruínas em 1890. Deu-se uma carnificina horrenda dos fazendeiros da família Oliveira, vingança dos Indios. Só escaparam duas moças. Refugiaram-se no lugar hoje de São Pedro, onde existia uma gangorra. São descendentes d’llas as velhas famílias de São Pedro e das Queimadas, bem como coronel Francisco Miguel da Ingazeira e o tenente Barboza do Riachão. Somente nos princípios do século XIX é que vamos tratar de construir capellas, quase simultaneamente como que por emulação, na Ingazeira, nas Varas e na Barra (Afogados). Francisco Barboza deu principio a uma capella na Volta. O lugar era admiravelmente escolhido e prestava um desenvolvimento considerável da população (terra de agricultura e água abundante). Porém talvez por causa da proximidade da capella já principiada da Ingazeira (cinco léguas) e da prepotência da família d’aquelle lugar, zangou-se e resolveu mudar-se para o Riacho das Varas. Ainda se vê na Volta um montão de pedras ajuntadas para a edificação da capella. Trocou parte das terras que tinha por herança com um Sr. Manoel Ignacio, reservando à Nossa Senhora Conceição um terreno extenso delimitado como consta do auto passado a 13 de março de 1832, em que se assignaram o Pe. José Antonio Alves de Brito, Manoel João Torres, Francisco Bernardes da Silva e Agostinho José de Siqueira e Silva. A capella só foi concluída em 1837, assim mesmo por sua viúva Da. Leonor Farncica de Carvalho. Auxiliou muito o então capellão Francisco José Correa. A Egreja é boa, bem construída, no estylo commum áqueles tempos. As paredes são de pedra, porem bem feita. Devia ter corredores que ficaram para se fazer. O Plano commum às Igrejas de Varas e de Ingazeira é assim: quadrilátero como corpo da Igreja; outro menor e mais baixo para capella-mor; um arco romano abrindo sobre a capela-mor. A esquerda, na capella-mor, uma porta abre sobre a sacristia disposta em meia água. Não há que procurar como arte architetural. No entanto essas capellas suppõem um esforço ingente da parte da população principalmente quando se compara a  construção d’ellas, com o modo tosco de edificar as casas dos fazendeiros mesmo abastados d’aquele tempo, sempre de taipa. Os capellães de Varas não foram constantes, apezar de boa Egreja e bem fornecida; apezar da casa, dita dos padres, que ainda hoje subsiste perfeitamente habitável. A principio esteve ahi o Pe. José Antonio. Esteve em 1837 0 Pe. Francisco José Correa; Voltou o Pe. José Antonio que residia na Ingazeira; depois esteve de capellão o Pe. Benicio de Moura, que deixou para a vigararia de Ingazeira. Em 1862 encontramos outra vez o padre Velho (José Antonio) que foi chamado de novo à vigararia de Ingazeira (Coadj. Pro Par). Em 1868 era capellão o Pe. Antonio Feliciano Padilha por seis mezes; deixou em consequência de um desgosto que se deu matando se lhe um amigo. Era de Pão d’Alho. Retornou a capellania o Pe. Velho ate 1874, data em que elle se retirou para morrer em sua fazenda do Poço Fundo, perto d”Ingazeira. E’o avo de Antonio Sibiú. Succedeu-lhe o Pe. João Bemvenuto pelo anno de 1875 e depois não houve mais capellão, ficando o ministério a cargo do Vig. Pe. Pedro de Souza Pereira. (capella da Ingazeira) Um descendente dos Viscondes de Saboeiro, do Carcará (ceará), irmão de José Nicolau que tinha sua fazenda na Cachoeira (norte do Distrito do Espírito Santo) alliado de Isidoro de Siqueira Carvalho, do Espirito santo, Agostinho nogueira de Carvalho foi quem começou uma capella dedicada a São José na povoação nascente de Ingazeira em 1820 ou 1821. Morrendo este, o filho proseguiu deixando construída a capella-mor e a Sacristia. E preciso chegar a 1849 para continuar seriamente os trabalhos. N’essa data o Governo e a província concorreram com uma auxilia de 3:000$000, o que com as mais esmolas dos particulares permitiram pôl-a no estado em que ainda hoje se vê, ficando por concluir pela construção dos corredores. O corpo da Igreja Immenso, a capella-mor pequena e a sacristia estreitissima. Tambem, como Varas a alvenaria é de pedra, porem as paredes altas e de uma composição duvidosa. O corpo da Egreja é disproporcional. Assim mesmo em redor correm os alicerces dos corredores do que devia ser a Igreja definitiva. O madeiramento do tecto é de cedro, obra de arte primorosa e imponente. Desabou a frente que fi reedificada em 1890 graças aos esforços do coronel Miguel Amaral Padilha. É pena não ter ficado ahi a sede da freguezia. Não só era central, como também o terreno favorável à vida agrícola e ao povoamento do solo. Porém o dono só queria crear, não queria que se edificassem casas. Era este Coronel Francisco Miguel de Siqueira, genro de Agostinho Nogueira de Carvalho, descendente da família que os Indios Carirys mataram ficando só as duas moças de São Pedro. Elle e os homens d’elle (sustentava Cangaceiros) tornaram o lugar inhospito. Já os vigários não gostavam. Manteve-se o Pe. José Antonio porque deixava fazer tudo, era uma mansidão exagerada. As festas da Egreja erão ocasiões de cenas violentas. Enfim a braveza dos habitantes fez com que os habitantes do Egypto construíssem uma capella em seus terrenos, porque não lhes era possível expor aos maus tratos dos da Ingazeira. O coronel Francisco Miguel mandou gente com machados derrubar o trabalho feito. Os do Egypto tornaram a fazer guardando o mesmo padroeiro da Matriz São José. Hoje São José do Egypto é sede de uma nova freguezia desmembrada de Afogados de Ingazeira. Nada direi dos padres da Ingazeira que erão os mesmos vigários da freguezia de que já fallei.

2.1.2 Afogados da Ingazeira. 

Capellania. Começou a casa da oração um padre que adquiriu estas terras dos proprietarios, jovem segundo lugar, (Familia Feitosa), gente do Piauhy. Era cousa singela, de taipa e barro brevemente substituída. Em 1829 os baptisados ainda se faziam na Capella da Colonha. Era capellão da Colonha Frei José, que vem a ser capellão também da Barra, vinha regularmente à casa de Manoel Ferreira, a qual existia detraz da matriz actual, onde se notam alicerces e a raiz calcinada de uma baraúna. Morou um certo tempo n’uma casa de taipa que existia perto do lugar accupado pela morada do coronel Chaves. A capellinha de taipa foi substituída por uma de esteios sólidos e enchimento de alvenaria,  porem sempre baixa e pequena em dimensões. Passou náquelle tempo um missionário, de honra Pe. Francisco do Convento da Baixa Verde, para visita e chrisma. Trouxe a imagem do Sr. Bom Jesus dos Remédios que aqui se venera. Alguns dizem que foi elle que a fez. Outro missionário, frei Caetano, foi quem animou o povo a augmentar a capella. Prolongou-se de seis a sete metros e ficou acabada em 1854. Era baixa e sem estylo. A obra de arte era também péssima. Estava longe de se assemelhar a de Varas ou da Ingazeira, devido a ignorância maior dos habitantes e maior pobreza. Frei José tendo fallecido do cholera em 1856 foi substituído pelo Pe. Pedro de Souza Pereira, que gente da família trouxe das terras do Teixeira. Era natural de Goyana. O Pe. Pedro nunca deixou esta capellania. Até a hora em que foi nomeado vigario de Ingazeira só fez tratar dos negócios matereaes particulares, e depois de nomeado vigario, recusou-se a ir morar na Ingazeira por causa dos interesses que elle tinha no Afogados, e porque não gostava do povo de lá. Um dia o coronel Francisco Miguel, chegando de viagem, mandou dizer ao vigario que o deixasse esfriar o sangue e tomar café para poder ouvir a missa. Naturalmente não foi attendido; e por motivos assim pequenos comprometteu-se por muito tempo o bem estar da freguezia toda. Assim foi como regeu a matriz, apparecendo lá de quinze em quinze dias, mas residindo em Afogados, até que a sede da freguezia como administração civil ficou transferida para o povoado de Afogados elevado a categoria de villa, 21 de novembro de 1879.

Sede da freguesia. Foi a lei 1403, de 12 de maio de 1879 que transferiu para Afogados a sede do município e da freguezia (foi o primeiro prefeito o português Alfredo Adolpho Ferraz Costa). Esforços e influencias (o Cel Francisco Miguel tinha morrido em fins de 1878) fizeram decretar uma lei nº 1761 de 5 de julho de 1883 para que voltasse a sede do município e da freguesia para a Ingazeira. Porem nem o vigario foi, nem o povo, que este já tinha desaprendido o caminho de Ingazeira, impressão que ainda hoje dura. A população tem o lugar como amaldiçoado. Como de facto seja amaldiçoada, a soberba, a prepotência, causa das injustiças e dos crimes origem da ruína d’esta Villa. Houve outras tentativas para reanimar a Ingazeira, mas todas baldadas; a população visinha arripiou-se, e vae ou para Espírito Santo ou para Bom Jesus ou para Afogados. A administração do Pe. Pedro de Souza Pereira reduz-se a nada. Sem ser escandaloso, nada zelou. Basta referir os dizeres dos visitadores. (Vide. Fls. 6vc e 7v) Os livros não estavam em dia; a igreja suja e insufficiente; sem sacrário, sem a Santa reserva (agosto de 1884). Quatro annos mais tarde, (dezembro de 1888) apezar das recommendações, observa o visitador que ainda não está a matriz provida de sacrário. Na visita de 1896 mesma observação: o altar-môr sem sacrário e Santa Reserva, os livros irregulares, os vasos para os Santos óleos imprestáveis, o ensino religioso nullo, a Igreja indecente por sua categoria de matriz da Freguezia. São José do Egypto ia prosperando guiado por um Capellão intelligente e zeloso, o padre Manoel Gomes da Fonseca. Sucedeu este ao Pe. Joaquim Manoel Correa e Silva que foi um tempo coadjuntor da freguezia (1848). O Pe. Manoel Gomes da Fonseca assistiu a 8 de dezembro de 1874 a consagração que o Vigario João Vasco fez da Freguezia ao Coração de Jesus. Foi elle o primeiro Vigario de São José do Egypto, facto que se deu a 10 de abril de 1881 e foi feita uma demarcação da freguezia distinta da do município pela lei 1880 de 30 de julho de 1886.

Limites da freguesia atual. Ao norte o estado da Parahyba, pela linha divisória da água do Piancó tributário do Rio Piranhas e as do Pajehú, affluente do São Francisco, num dos contrafortes do Planalto da Borborema. A Noroeste uma linha convencional divide a freguezia de Afogados da de São José do Egypto, marcada por uma estrada antiga que ligava Alagoa de Monteiro ao Piancó em Agua Branca. Essa linha os sítios seguintes de Noroeste a Sueste: Caldeirão d’Anta, Cachoeira, Nova Hespanha, Fazenda Nova, Riacho do Meio. Dáhi a lei 1880 de 30 de julho de 1886 faz passar a demarcação por Fortuna, Bom Jesus, Cacimba Nova, Cajueiro até o Riacho do Joaquim. Do Riacho do Joaquim vem a divisão, rumo aos sul, separando os estados de Pernambuco e da Parahyba pela divisão das águas, passando pelas serras Sacco do Tigre. Papagaio, Santa Tereza, Serra Branca, Caldeirão até Jabitacá, onde a freguesia se separa da Alagoa de Baixo em tudo o seu cumprimento meridional sendo a linha divisória a mesma das água do Pajehú a Moxotó, passando pelas serras de Jabitacá, do Cágado, da Velha Chica até ligar com a Carapuça, que a separa ao poente, da freguesia de Flores, sendo o leito do Rio dos Postaes o traçado natural até Encruzilhada e d’ahi dirigindo-se para o cimo do Serrote Verde. Vem atravessar o Rio Pajehú nos Pacús, ganhando na direção do norte os contrafortes da Serrinha que dividem as águas dos Dous Riachos, affluente do Pajehú, das águas do Riacho Caiçara que é de Flores, galgando depois o serrote de São João que faz parte da terra do Bom Fim, ou Colonha, até ligar com os limites da Parahyba.

Núcleos habitados. Afogados – Espírito Santo – Varas – Ingazeira – Riacho Conceição – Dous Riachos – Caldeirão – Campos Novos – Carnahybinha – Pelo Signal – São João – São Domingos – São Thiago – Bezerro – Cedro – Gangorra – Macacos – Coruja – Riacho do Mel – Macambira – Alagoa Velha – Bom Nome – Alazão – Barra – Lagoa do Serrote – Caldeirão Grande. São esses os lugares onde existem maior grupo de casas.

Outras capellas. Para o serviço religioso existem, alem da matriz, a Capella do Espirito Santo, situada cinco leguas da matriz, a noroeste; a Capella das Varas, a sueste, 8 leguas da Matriz e 9 do Espirito Santo; entre as duas, a capella da Ingazeira, cinco leguas da matriz, 3 ½  do Espírito Santo, 5 ½  de Varas. Essas capellas são sufficientes. O Vigario de São José do Egypto (Pe. José Guerel) mandou fazer duas capellinhas, nos limites mesmos da freguezia, uma no Bom Jesus, outra no Riacho do Meio; os parochianos de Afogados escapam assim ao próprio Vigario. Duas outras capellas, uma no norte, em Agua Branca (fins commerciaes) ½ légua dos limites estaduaes, a outra no sul em Quitimbú, tem um resultado analogo. Para haver uma ação religiosa mais uniforme era conveniente prohibir que se façam capellas com menos de duas leguas dos limites das freguesias. Por outra parte a freguezia necessita de duas capellas mais. Uma no Riacho Conceição, detraz da serra do Bom Fim para ahi instruir a população cada vez mais densa e está se construindo pelos esforços do povo; a outra pelo lugar Macacos onde já existe a doação de uma terra n’esse propósito. A casa de oração do Falcão não é sufficiente. Os povos do Cedro e do Jorge devem accostumar-se a ir para a Igreja de Ingazeira. Em resumo a repartição das capellas e a colocação da matriz no limite extremo oeste tornam a freguezia de Afogados, extremamente laboriosa e de uma administração difficil.

ORAÇÃO À NOSSO SENHOR BOM JESUS DOS REMÉDIOS

Senhor Bom Jesus dos Remédios, morrestes na cruz,

para perdoar nossos pecados, para curar nossos males.

Ressuscitastes, para nos dar vida nova da graça,

para conduzir à glória celestial. Ajudai-nos a fazer o bem

sem olhar a quem, a perdoar aos que nos ofendem, a amar

até os inimigos. Dá-nos servir a todos, como irmão, a fim

de que, na verdade, vivamos, desde agora, o vosso reino,

a vossa paz. Assim seja.

Igreja Senhor Bom Jesus dos Remédios

Pe. GILVAN BEZERRA DE LIMA

Nasc.: 23/07/1971

Ordenação12/12/1997

Função: Pároco

Endereço: Av. Rio Branco, 289- Centro.

Cep: 56.800-000 Afogados da Ingazeira/PE

Fone: (87) 3838-1221 

E-mail:

gilvanbezerra@libero.it